| Várias |
sexta-feira, junho 19, 2009
Char Dham
A última peregrinação por terras da mãe Índia, no estado do Uttarkand... tendo passado por Yamunotri (nascente do Yamuna), Gangotri (Gaumukh - principal nascente do Ganges), kedarnath (próximo das nascente do rio Mandakini) e Badrinath (próximo da nascente do rio Alaknanda). Conhecido por Char Dham estes quatro locais são considerados sagrados e auspiciosos...
"Peregrinar dentro de mim"
A todos os que têm acompanhado este meu peregrinar desejos das melhores vibrações do alto das montanhas.
Namaste
Rui
domingo, junho 07, 2009
Quarenta dias em Vindhya Vasani
Esta experiência começa quando recebo um e-mail, do Brasil, do meu amigo Thierry que conhecera cerca de 2 anos antes, bem perto de Lakshman Jhula, local onde me encontrava.
Estava "meio retido" pois com tanta viajem e alterações climatéricas encontrava-me a recuperar de uma constipação e a aguardava que Guruji "descesse" dos Himalaias, pois só com as formalidades e respectivas autorizações podia instalar-me no Atmakutir.
O dito e-mail falava de "um processo" pelo qual é possível viver unicamente de prana e de como o por em prática. Devo dizer que o entusiasmo foi crescendo à medida que ia lendo o livro no portátil que transporto comigo.
Não pude evitar de me por à experiencia do dito processo mesmo sem ter terminado a referida leitura. Tal veio a acontecer após breve passagem pelo Atmakutir e após sugestão de Guruji para deslocar-me a um pequeno ermo, em Vindhya Vasani, para a celebração do Navratri, com outros elementos do Ashram.
Ainda no Atmakutir e na noite anterior ao iniício do referido Navratri o rugido bem sonoro de um tigre fez-se ouvir. O tigre (ou o leão) está profundamente ligado a Durga que é o centro desta celebração. Este animal aparece sempre com a sua montada (veículo) e como a linguagem do Universo é a sincronicidade só se poderia fazer uma leitura auspiciosa. Na realidade esta foi a forma que o Hinduísmo encontrou para venerar a parte manifestada da criação através da Mãe Durga (Mãe Divina). Cada dia desta celebração lembra um dos seus aspectos. Por tradição durante estes dias só se toma uma refeição por dia dentro de um ambiente que evite exteriorização, razão pela qual nos encontrávamos ali.
No último dia estávamos reunidos junto de uma imensa arvore Banyan, espécime com muitas centenas de anos, talvez mesmo milhares e ligada a diversos seres que ali realizaram as suas práticas espirituais. Assim estávamos ali reunidos para o Havan (ou Yagnya) que consiste num ritual védico que tem por base o elemento fogo como canal.
Tudo estava sereno, o vento era praticamente inexistente, o fumo do incenso subia em pequenas ondulações como se se espreguiçasse lentamente. O fogo tornou-se forte, na realidade demasiado forte o que fez afastar alguns elementos ligeiramente, eu inclusive. É neste ambiente de inicio de Havan que o inesperado acontece quando um imenso enxame de abelhas enfurecidas inicia um ataque massivo sobre nós! O calor do fogo subira ate à colmeia existente nos ramos superiores e fizera soar "o alarme"... Quanto a nós nada havia a fazer senão correr o mais rápido possível. Nunca me tinha visto em tal situação; a ser constantemente picado corria descalço sobre pedras ladeira acima, quase sem ver o caminho com tanto movimento de mãos... uma fuga que parecia simplesmente fora de controlo!
Foram as duas divisões que funcionaram como quartos a nossa salvação pois todo o enxame perseguiu os desprotegidos alvos. Mais de vinte picadelas pude contar para além das muitas outras que se ficaram pela roupa!
Para além de todo o aparato da situação não houve consequências de maior; meia dúzia de dias foram suficientes para que os sinais deste massivo ataque começassem a desaparecer.
Uns dias mais tarde, eu e Niraj, para celebrar os seus seis meses de sadhana, encontrávamo-nos no mesmo local a executar o mesmo ritual e não houve qualquer problema. Parece que o único problema foi mesmo o excesso de calor que provocou o "alarme" na colmeia, nada mais.
O dito Havan foi terminado mesmo ali num dos quartos pois as abelhas continuaram a rondar o local durante longo tempo.
Refira-se que estes espaços estão dentro do Parque Natural e são muitos os animais facilmente visíveis: veados, javalis, raposas, tigres e até elefantes, para alem dos muitos outros animais onde se destacam os imensos pássaros tendo o pavão presença praticamente diária.
Peço a Guruji para ficar mais uns dias pois parecia-me que ali se reunião as condições ideais para por em prática o dito "processo de alimentação pranica".
Resumidamente, os vinte e um dias do "processo" estão repartidos por três fases. Os primeiros sete dias só se ingerem líquidos. Nos sete dias seguintes só se almoça uma sopa e na terceira semana não se ingere nada: nem líquidos nem sólidos!
Vejo-me assim a passar por este processo de purificação físico e mental... A confrontação interna é bastante forte pois passa-se por uma experiência onde o "desconhecido" marca presença permanente e não havia ninguém a quem recorrer.
A última semana foi especialmente difícil pois o calor era imenso o que me levou a ter de beber agua uma vez por dia, o que tinha de ser feito com contenção pois a tendência natural era ingerir grandes quantidades.
Para quem quiser conhecer esta realidade fica a informação do livro que tem uma abordagem muito positiva, diria de certa forma que é demasiado positiva. As diferentes etapas de mudança de alimentação como fases preparatórias parecem ser factores indispensáveis para ajustar o corpo e mente para tal prática. Parece-me sensato que só depois de verificar a adaptação saudável do corpo e mente a uma alimentação de sumos naturais e vegetais, com a motivação correcta e tendo por base o auto conhecimento interno baseado na meditação o indivíduo deveria ponderal a eventualidade de tal prática. A prática não deveria ser o objectivo em si mesma mas a consequência de uma vida espiritual equilibrada e sustentada que pode ter este caminho como uma continuidade natural.
No meu caso pessoal, o meu corpo físico não estava suficientemente preparado para "suportar" tal prática. Reconheci-o durante o processo e tive a conformação posterior, provinda de mais que uma fonte, que esta prática não é indicada para mim. O médico Ayurvedico disse-me directamente que não deveria fazer estes jejuns longos. Actualmente procuro ir à raiz dos problemas procurando sarar as mazelas e recuperar o peso perdido tendo, dentro do possível, uma alimentação saudável.
Contudo, a prática do jejum não está totalmente posta de lado. Uma vez por semana e com a devida atitude, em total serenidade e elevação espiritual pode ser uma prática muito positiva a todos os níveis.
Como me referiu a minha amiga Maria acerca do assunto:
"Quanto aos jejuns, nunca aconselho grandes prolongamentos. Um dia chega. O que é necessário é a atitude correcta para fazer jejum. O motivo deve ser sempre a purificação, não só corporal como espiritual, pois todos os corpos beneficiam da ausência dos alimentos. Assim, se o objectivo for, obter maior compreensão sobre si mesmo através de um dia de silêncio e de jejum, deve ter em conta que os benefícios resultam se não houver dispersão.
Ou seja para um jejum deve haver a correcta atitude espiritual, pois assim pode alcançar maior expansão de consciência e obter maior Integração com o seu Eu Superior e a consequente União. Fazer jejum apenas para purificar o corpo não vai resultar tanto como se o fizer com o objectivo espiritual."
Entretanto finalizando "o processo" mas mantendo o silêncio tenho a surpresa da presença de uma Mexicana que ali passou alguns dias para as suas práticas que envolviam longo tempo junto à arvore Banyan numa atitude meditativa e contemplativa. Mais tarde tive o prazer de conhecer as suas várias experiências fruto de mais de 20 anos de contacto com a Índia. Através dela fiquei a conhecer um pouco das suas vivências com Papaji, um discípulo de Sri Ramana Maharshi. Foi com surpresa que soube que visita Portugal com regularidade para se encontrar com Gangaji, a mais directa discípula de Papaji, que vive no Algarve! Ainda lhe disse que por este andar não precisaria de voltar à Índia pois posso encontrar tudo o que preciso em Portugal! :) Coincidências ou talvez não.
Mais uma vez parece que estas partilhas têm tendência para se estenderem...
Que o Amor se inflame no coração daquele que O busca (O Puro Amor)
rui
http://www.esnips.com/doc/f3f04eb4-d8bf-4edb-9fe1-af0d3f7201d4/Jasmuheen-Viver-de-Luz
sábado, maio 23, 2009
Ventura da Luz (Reflexões)
No topo da coluna do lado direito (a verde) encontra-se uma nova rubrica: "Ventura da Luz (Reflexões)".
Ele próprio faz questão de se apresentar: "Olá! Eu sou o Ventura da Luz". Parece que gosta de reflectir acerca de vários temas, que desde há muito buscavam e necessitavam de encontrar (ou reencontrar) Ventura da Luz para lhes dar expressão...
Para já foram editados dois textos: "Nos olhos do touro - A Tourada Lusa" e "'Lisboa Nova' e a 'Nova Lisboa'".
Adianto que estes textos nasceram num momento algo especial desta peregrinação, por terras da Mãe Índia; o primeiro texto, "Nos olhos do touro", p.e., veio à luz, casualmente, no dia 25 de Abril, o que é caso para dizer que Ventura da Luz não esta assim tão distante de Portugal.
Sempre que Ventura 'se aventure' numa nova edição farei uma pequena introdução a informar, idêntico ao que agora se apresenta.
Nota: Os referidos textos podem ser divulgados. Excepção feita a qualquer divulgação onde estejam interesses comerciais envolvidos.
Comentários e/ou criticas com abordagem positiva são muito bem vindos.
Rui Pereira
Do texto: "'Lisboa nova' e a 'Nova Lisboa'"
"Desde há vários anos que me faz todo o sentido mudar a capital Portuguesa para outro lugar e à medida que os acontecimentos nacionais vão passando na grande tela das nossas vidas, essa primeira ideia encontrada na vastidão do cosmos continua a luzir. Se já não deixou de ler, certamente estará a pensar: “ Mas o que é que este quer agora?” E eu digo que não quero nada; mas como a vida é aquilo que nós queremos fazer dela, eu neste momento quero continuar a escrever. :) Perguntarão: “Mas porquê?”, “Para quê?”, “Para onde?”, “Com quê?”, “ Quem?”, “Quando?”... Será mais alguma daquelas soluções num estilo bem conhecido de um país que se põe frequentemente em bicos de pés para receber umas ‘palmadinhas nas costas’? Porque mudar uma capital com séculos?"
terça-feira, maio 12, 2009
“Fogo Védico” – Homa Terapia
(terapia divulgada no livro "Homa Therapy – Our last chance")
Falar de Veda é falar das escrituras mais antigas da Mãe Índia onde se aborda o conhecimento do Divino; contudo os Veda abrangem um leque variadíssimo de assuntos, como p.e., política, saúde (Ayurveda), astronomia... entre outras temáticas. Terá sido revelado por seres de grande realização espiritual (Rishis).
É crescente o interesse Ocidental por várias práticas Orientais, como yoga e Ayurveda, numa vertente mais externa, mas também as filosofias que as suportam são alvo crescente de interesse como são os casos do Vedanta e Tantra.
Acerca do yoga, com todas as suas valências, destacaria a Kriya Yoga (ou Raja Yoga), onde o mesmo interesse parece ser cada vez mais significativo, por várias razões e que talvez um dia venha a abordar neste espaço.
Parte significativa da origem de todo este manancial provem destes Vedas!
À medida que o Ocidental vai contactando com estes sistemas e práticas parece reconhecer progressivamente os benefícios de tais abordagens que se aproximam de um equilíbrio e vivências saudáveis, que nos parece ter fugido por entre os dedos. Porém os ensinamentos vão muito mais longe! Mais do que fazer meia dúzia de exercícios, estes textos Védicos indicam várias outras práticas de equilíbrio entre o homem e o ambiente (O homem como parte de um Todo) e acima de tudo veiculam os ensinamentos práticos e filosóficos para que o homem realiza esse ‘Todo’ em si mesmo!!!
Trago as ideias acima para enquadrar uma prática Védica, que parece ganhar uma abordagem ainda mais interessante à medida que a mente Ocidental a põe em prática e se despertam as mentes científicas.
Sem que se saiba exactamente com funciona, o uso do fogo, no contexto do ritual Védico, conhecido como Yajnya ou Homa Terapia, tem provado pelos próprios resultados a sua eficácia (segundo o livro), o que inevitavelmente forçam e estimulam a sua aceitação e investigação.
Deixo a tradução da contracapa de um livro que promove de forma entusiasta esta prática, que diga-se é bem simples de ser praticada e em qualquer lugar. As referências aos benefícios são tantos, que o melhor é comprar o livro (por sinal barato) e experimentar até alcançar os resultados.
"Cura a atmosfera que ela curar-te-á.
Este é o princípio básico da Homa Terapia.
Homa Terapia provem dos Veda, a mais ancestral sabedoria conhecida pela humanidade.
Homa terapia é a ciência de purificação da atmosfera dada pelos Veda. Homa e Yajnya são sinónimos. A prática da Homa Terapia remove as toxinas da atmosfera e tem um fortíssimo efeito nos humanos, animais e reino vegetal, na realidade, em toda a biosfera. As plantas são a base da alimentação humana. O reino vegetal sofre pesadamente devido à poluição atmosférica. "Comida" produzida em atmosfera onde se realize esta prática é ela própria medicinal, actuando preventiva e curativamente. Este aspecto da Homa Terapia na forma de ‘Cultivo Orgânico Homa’, tal como, ‘Medicina Tradicional’, são também abordados neste livro."
Nota final: Segundo o próprio livro, nem Indianos nem Ocidentais sabem concretamente como funciona em termos de reacção das partículas, contudo todo este fenómeno para ter por base as leis da ressonância.
A execução do ritual com a vocalização dos mantras (som), ao nascer e pôr-do-sol parecem anular o efeito da poluição e suas toxinas repondo um ambiente de harmonia, ao ponto de actuar também ao nível dos desequilíbrios e tenções existentes na própria psique humana!
Pela sustentação da vida" rui (R.P.) 29 de Abril de 2009
Livro:
Homa Therapy – Our last chance"
V.V. Paranjpe
Fivefold Path Publication
Monika Koch
Petergasse 2
D-78345 Moos-Bankholzen / Bodensee
Germany
Tel & Fax: +49 (0) 7732 2830
www.homatherapy.de
www.homa-healing-center.com
www.agnihotra-ash-medicine.com
Fivefold Path Mission
40 Ashoknagar
Dhule 424001
Maharastra
India
Tel: 02562-246993
Nota: Por agora deixo estes dois contactos, porem o livro refere outros endereços que podem ser disponibilizados. É só solicitar.
A publicidade e o blogue “naindia”
Durante este tempo o blogue foi evoluindo e a partir de determinado momento passou a ter publicidade correlacionada com os vários assuntos que vou abordando. Até ao momento o blogue teve quase 4000 visitas e pouco mais de 60 U.S. foram reunidos nas visitas á dita publicidade, mas que estão nas contas do Google, esperando que a o valor chegue aos 100 U.S. para desbloquear o pagamento!
Estes 100 U.S. parecem fazer muito mais sentido na minha conta do que nas milionárias contas do Google. :)
Contudo, em nenhuma circunstância pretendo pressionar os visitantes deste blogue... Com ou sem dinheiro da publicidade faço intenções de continuar com estas partilhas, porque também novas e interessantes ideias estão na forja... e enquanto houver quem tenha alguma paciência de as ler... :)
Que as inspirações sejam de parte a parte
R.P.
quinta-feira, março 19, 2009
Onde estive? - Incidentes (Edição do Félix)
Quero dizer àquela gente alguma coisa mas por algum motivo não consigo mexer-me, o próprio respirar é nulo... ou quase... Percebo que há muito que não usava a fala, parecia simplesmente que a garganta estava colada, que se tinha tornado rígida... é difícil explicar.
Existe um senhor de cores brancas que faz gestos para mim com um ar da simpática inevitabilidade e algo distante lê um livro, como se já o tivesse lido muitas vezes...
Faz-se escuro. Estou ali deitado naquela imperceptível respiração... A superfície parece ser de cetim mas não sei ao certo e no peito puseram uma cruz de metal frio. Um balouço desconcertado faz-se sentir seguido aos ruídos que fazem lembrar estar no meio de uma trovoada... Uma forte trovoada!...
E como sempre... Após a tempestade a bonança! Um silêncio ensurdecedor faz-se ouvir. E teve a duração de muitos anos! É como se todos tivessem desaparecido...
E ali estava eu deitado; e contudo sentia-me bem! Quase que poderia dizer que me sentia feliz.
Mas quem estava ali deitado?
Um Dom Quixote que se cansara de lutar contra moinhos de vento?
Um Sancho Panca que gozara tudo o que havia para gozar?
Alguém com preguiça? Como alguém que bem conheço, às vezes, diz: "O que é que estas ai a fazer alapado?" Alguém que não sabe para onde ir? Que perdeu toda a motivação? Que foi cilindrado pela sociedade? Que prefere não ver o que se encontra ao seu redor?...
Que amara e se decepcionara? Ou se incompatibilizou com a sua contraparte, vulgo sexo oposto?...
Alguém que não quer sofrer?...
Alguém incapaz de novas conquistas?...
Não sei, não sei, não sei e não sei! Pouco importa; o que importa é que gostava de estar ali.
Durante muitos anos fui sobrevivendo com o pouco ar que vinha entre as finas areias, que pareciam envolver aquela estrutura, onde continuava deitado sem qualquer movimento... Só mesmo aquela imperceptível respiração...
Por vezes eram muitos os pensamentos que me passavam pela cabeça... que quase me faziam esquecer que estava ali deitado... Esta agitação do pensar certamente era provocada pelo pouco ar e por uma sensação de sufoco que era permanente... As próprias emoções tinham de ser controladas pois o pouco ar era insuficiente para expressa-las o que parecia comprimi-las ainda mais!...
Durante todos esses anos procurei adaptar-me a esta insuficiência de oxigénio ajustando a forma de viver mas por muito que ajustasse o ar era sempre insuficiente...
Talvez quando lá fora chovia o ar tornava-se mais fresco sendo possível encher os pulmões com ar refrescante que me trazia as vagas lembranças de outros tempos onde era possível respirar de pulmão completo e sentir que o ar que esta dentro é o mesmo que está fora, sentir o ar sem cheiro ou com leves aromas que emanam paz e contemplação... Ou o cheiro da água indolor que exala frescura húmida como a dizer: "Brinca comigo", "Bebe-me, banha-te, lava-te, adoça-te.", "Sê também tu água em mim, tu que também és feito de mim"
(...)
Porque será que me doem os pulmões?
Félix (R.P.)
terça-feira, março 17, 2009
"Lágrima Doce" - Sri Lanka
Lanka do épico Ramayana, Taprobana do período pré-colonial, Ceilão dos Portugueses, Seilan dos Árabes ou Sri Lanka dos Singaleses, esta ilha parece ser todo esse passado-presente que se vai abrindo no meio da luxuriante floresta, num misto de contrastes tão típico destes países do Sul da Ásia, que descrevo desta forma:
"Salgado o Mar azul
Doce a floresta pintada com todos os tons de verde
Salgados os corvos pretos
Doces os pássaros coloridos de arco-íris
Salgada a prisão de Sita por Ravana em Sita Eliya
Doce a sua libertação por Rama e Hanuman
Salgadas as vontades que procuram apagar os poucos sinais da presença Portuguesa
Doce a presença de Santo António e a devoção que perdura desses tempo
Salgado o controlo (necessário ?) das tropas nos locais de peregrinação
Doces as árvores milenares que preservam em si recordações dos primórdios do Budismo
Salgadas as águas destruidoras do "tsunami" (1)
Doce a cooperação vinda do exterior
Salgado o conflitos entre tropas e Tigres Tamil
Doce a convivência entre as várias comunidades religiosas
Salgadas as manipulações dos homens que detêm poder
Doces a paciência das gentes simples
Salgada a forma como se conduz
Doce a água refrescante dos cocos
Doce as plantações de chá nas montanhas de Nuwara Eliya e o ar penetrante que ai se respira
Doce a oportunidade de poder contactar a "Lágrima Doce"
Nota: De acordo com fontes no local cerca de 53000 expiraram.
Relacionado com o maremoto (tsunami)... Uns dias antes de chegar a Baticaloa lia que aí ainda existia quem falasse uma espécie de dialecto com base lexical Portuguesa o que despertou um pouco a minha atenção... Seria interessante encontrar alguém que o falasse... Ao perguntar acerca de tal eventualidade a um local, ouço a seguinte resposta: "Conhecia dois ou tres e foram levados pelo 'tsunami'!!! Perante tal afirmacao secaram-se-me as palavras!
Os diamantes de Niraj
De Rishikesh viera Guruji e de vários pontos de Andhra Pradesh os vários membros (como usualmente costumam chamar-se); Inderjeet Babaji, "antigo discípulo de Guruji, é o anfitrião da "Yajnya celebration".
O endereço que transporto era Sai Krupa Ashram, em Hyderabad, onde me dirijo e é lá que tomo conhecimento da existência deste Yacharam Ashram e da dita celebração.
Pouco tempo depois um jeep aparece e alguns conselhos são me transmitidos, num estilo bem Indiano. Mais tarde estamos a percorrer uma estrada de terra; a paisagem é semi-desértica, os campos estão coloridos de amarelo-torrado e salpicados por verde pálido das poucas árvores e arbustos que aumentam de número junto das formações rochosas; uma delas é de base granítica que mais tarde chamaria de "O Vulcão" e à esquerda uma curiosa linha de pedras negras, que se estende por vários quilómetros...
Uma tenda improvisada para o acontecimento serve como suporte logístico e é lá que se encontra Inderjeet Babaji, que vejo pela primeira vez. Prosto-me em sinal de respeito e é a ele que entrego uma caixa de doces, respeitando assim uma tradição Indiana e verbalizo algumas palavras às quais ouço como resposta: "Não importa se dás muito ou pouco mas a intenção da dádiva, é que deve ser verdadeira". Talvez não só pelo que acabava de ouvir mas a forma como ouvi aquelas palavras que simplesmente me fazem sentir como se tivesse acabado de chegar a casa!
Muitas coisas aconteceram durante estes três meses que estive ligado a este espaço, sem que tivesse previsto o quer que seja; tudo foi acontecendo como se já estivesse previsto e eu só tivesse que saborear aquilo que vinha ao meu encontro. Se momentos há em que as incertezas pareciam dominar (e por vezes, parece), a experiencia que ali se desenrola mostra que esses receios são infundados, não mais do que criações da mente.
O dia seguinte era o inicio do silêncio de Niraj. Conhecido por "Mauna" o praticante compromete-se a manter total silêncio durante determinado período de tempo. No presente caso o compromisso era de 90 dias. Guruji e Babaji abençoaram-no e ele pede a bênção dos presentes num gesto simbólico de inclinar perante cada um dos presentes tocando-lhes os pés.
Depois destes dois primeiros dias regresso ao Ashram de Hyderabad onde sigo alguns conselhos de Inderjeet Babaji que são muito direccionados para o relaxamento profundo, onde o objectivo é trabalhar as tensões profundas desta mente-corpo. Percebi então que aquilo que chamamos de Paz não passa de um estado de Ser, que se manifesta quando relaxamos das nossas tensões e agitações da mente. É nesse Silencio interno, que ao ser sustentado nos trará a Paz que abrirá as portas para as realizações internas e auto conhecimento. Posto assim pode parecer fácil mas a mente é algo bem "poderoso" cheio de "entroncados". Uma vez dizia a Babaji: "É tão difícil alcançar e manter esse estado de relaxar completamente". Ele responde: "Sim é difícil mas não impossível!" A mente agarra-se aos padrões habituais e resistirá... trazendo à superfície as mais diversas dificuldades, qual material que domina escondido nos véus do subconsciente!
Para quem quer conhecer o que existe lá no fundo, bem escondido nestas caves, conciliar técnicas de relaxamento, silencio, alguns exercícios de Yoga, um banho de agua fria ao nascer do Sol, fazer alguns exercícios de Pranayama, deixar-se envolver num ambiente de espiritualidade sobre a orientação de alguém que percorreu estes caminhos, pode transportar a percepção crescente do que é viver em Bem-Aventurança.
Infelizmente, três meses só dá para ter um pequeno contacto, mas é o que é; contudo essa pequena percepção é o contacto com a Vivência, que apesar de precisar de muito trabalho é o suficiente para dizer:
"A minha busca terminou".
Verbalizar tal frase para alguém que tem percorrido milhares de quilómetros tem um sabor muito especial. Quando reflectia a primeira vez acerca desta questão todas as células do meu corpo pareciam vibrar de jubilo, alegria e comoção!...
É com Ira, um ser muito bonito, que retorno ao Yacharam Ashram, onde Niraj continua o seu silêncio, deixando crescer a barba e usa trajes Indianos muito simples...
Envolvo-me, como que contagiado, na prática do silêncio que estendo durando 40 dias, onde contacto com novas realidades que antes pareciam não existir, o que por si só aumenta a dificuldade de as explicar.
Tópicos como novas percepções na relação com a natureza parecem trazer significados cada vez mais profundo, p.e., os nossos movimentos e os dos pavões selvagens pareciam tornar-se cada vez mais próximos, para podermos variadíssimas vezes contemplar estas criaturas sensíveis, consideradas sagradas, em voos coloridos ao por do sol ou ouvi-los em seus cantos a anunciar um novo dia...
Quanta beleza transportam os papagaios que no seu chilrear agitado parecem voar de acordo com determinados movimentos energéticos que vão mudando ao longo de um dia...
Ou as diferentes "vibrações", facilmente percebidas em meditação, provenientes daqueles solos onde não serão alheios os vários fenómenos geológicos que ali ocorreram; Não terá sido por acaso que Niraj sonhara com papagaios comento diamantes e pérolas naqueles solos...
Ou viver sem espelhos...
Ou o mundo dos sonhos que parece entrelaçar-se cada vez mais com a realidade...
(...)
Parece um novo mundo a abrir-se lentamente à medida que nos solidificamos nessa tranquilidade e vamos relaxando de todas as tensões, que nada mais são que identificações às quais nos agarrámos mantendo ligações energéticas, normalmente desconhecidas conscientemente, que alimentam um eu ilusório; "atafulhando" permanentemente as nossa mentes "internas"; e parece ser no meio desse "entulho" que criámos a ideia de liberdade que certamente nunca encontraremos...
(...)
Ira há muito que viajara para Rishikesh, Niraj também regressara com Guruji que viajara ao nosso encontro após aqueles três meses trazendo um sabor muito, muito especial; eu prolongo o meu silêncio preparando-me também para viajar ate ao Sri Lanka.
Estou na minha cabana de canas de bambu e cobertura de palha de arroz, deitado no colchão irregular que tem a espessura suficiente para não deixar passar o frio do piso de cimento e qual não é o meu espanto ao ver uma cobra serpentear em minha direcção, vinda debaixo do pequeno altar que tinha mesmo ali em frente dos meus olhos. Vinha com a tranquilidade de quem faz uma visita amigável; eu admiro-a, nas suas cores de branco e preto, entre o incrédulo e a compreensão do simbolismo de tal acontecimento precisamente no ultimo dia de silêncio e permanência no Ashram. Como Babaji diz: "Não é coincidência, mas sim o sistema!" (precisamente no mesmo sentido em que Prem Baba diz: "A linguagem do Universo é a sincronicidade").
(Abaixo está uma correspondência que enviei logo após esta experiencia que parece falar por si).
"Saudações de Luz...
Nem sei bem por onde começar...
Terminei no dia 14 (de Fevereiro) a prática do silêncio que acabou por durar 40 dias completos. Que experiência! Nunca tinha andado por tais caminhos... E na realidade a percepção que ficou é que o Verdadeiro ainda não tinha começado! Viver totalmente no SILÊNCIO o quão maravilhoso não será?! A experiência por que passei parece ter sido um aproximar a uma janela onde tudo "vibra" noutra frequência! Tal prática permite começar a solidificar estruturas que só vagamente eram tocadas dando o devido tempo para que cresçam para lá dos receios, alterações mentais... que surgem na mente."
"Que o Puro Amor seja vivenciado"
Rui
Próxima edição: "Lágrima doce" - Sri Lanka
sábado, março 07, 2009
Em direcção ao Sul
Em Rishikesh;
O reencontro com Rishikesh fora atribulado fazendo-me alterar os planos abruptamente; contudo, também estas alterações parecem fazer parte do "plano" que cada vez mais me afastam do meu querer pessoal. Uma atitude aceitante destas alterações tem revelado significados e experiências que de outra forma, certamente, não aconteceriam...
Rishikesh tem-se tornado numa segunda casa neste deambular por terras da Mãe Índia. O próprio nome transporta um significado profundo (Rishi+Kesh), que significa "cabelo do Rishi". Posto assim parece não ter nada de especial, mas na cultura Hindu, "Rishi" é aquele Ser que compreendeu, não só as leis físicas, mas também as leis dos planos invisíveis, tendo poder para actuar em todos estes planos; "Rishi" é uma espécie de cientista conhecedor de todos os planos da manifestação. A linguagem dos símbolos, refere "cabelo" como "vibração"; querendo isto dizer que naquele solo estas qualidades estiveram e estão presentes, afectando, normalmente inconsciente, todos aqueles que por ali passam.
Não será por "simples acaso" que um ano antes (ultima série de fotos deste blogue) recebera a iniciação no Mantra Guru (Diksha) com todo o simbolismo do corte do cabelo (corte das vibrações antigas) com a oferta ao Ganges (Mãe Ganges) de tudo o que é velho para deixar crescer as novas vibrações que serão uma emanação do ritual em si e da energia do local. (...) Todo este ritual acontece sem que tivesse qualquer ideia destes significados.
Em Delhi;
Dois ou três dias depois, encontro-me em Delhi, onde consulto dois médicos acerca de algumas mazelas algo recorrentes, recebendo a informação que não haveria nada de especial, o que me deixou mais tranquilo... O sadhana regular com práticas tipo meditação, Yoga, técnicas de relaxamento... parecem ajudar a trazer à superfície estas mazelas que uma vida mais virada para o exterior deixa passar despercebido. O outro aspecto é que as práticas em si actuam na própria mente tornando-a mais sensível (...), e quando não sabemos o que está em causa, o melhor mesmo é ir ao médico! :)
Entre o médico e as viagens no moderno metro de Delhi ainda pude ver o Red Fort (Forte Vermelho), construção sultana do Império Mugal, misturado com as construções no interior das muralhas de edificações do Colonialismo Britânico, ou o frenético mercado das especiarias e frutos secos, mesmo ali em frente.
Caminho por Dedhi entre estes mistos de cultura e algumas conversas que tenho pontualmente com os locais e outros viajantes; lembro-me de uma questão de um Japonês que se admirava acerca do Portugal do presente parecer desaparecido quando comparado com o Portugal de outros tempos, ou do Esloveno que aparecendo no meio da conversa, conta a história, ainda indignado, do aparecimento de um jogo popular na Índia, que envolve episódios macabros de uma "donzela" Portuguesa...
Delhi mostrou-se agradável mas a minha atracão por cidades parece reduzir-se a muito pouco...
Em Agra;
A minha descida leva-me ao famoso Taj Mahal que sem dúvida é digno de ser apreciado. Foi dedicado a Mumtaz Mahal, segunda mulher do Imperador, que morrera ao dar à luz o 14º filho. Em sua memória o Imperador, Shah Jahan, edifica este mausoléu, onde também ele viria a ser sepultado; Tagore, poeta de Bengala, virá a descrevê-lo tão simplesmente como: "Uma lágrima na face da eternidade".
Não muito longe fica também o mausoléu de uma das maiores referencias da India, Akbar, que segundo varias fontes fora um dos mais sábios governantes da Índia. Se bem me recordo, Akbar, promovera vários encontros inter-religiosos num espírito de tolerância e partilha, onde também os Portugueses, provenientes de Goa, participaram.
Em Ajanta e Ellora;
Um pouco mais abaixo, mas já no Estado do Maharashtra, visito Ajanta e Ellora num entalhado de Templos escavados na rocha que parecem concorrer entre si ao premio de arquitectura, onde as três religiões ancestrais da Índia se encontram representadas: Hinduísmo, Jainismo e Budismo.
O Lonelly Planet refere que Ajanta após o seu período áureo, 200 a.C. a 650 d.C., só viria a ser redescoberto em 1819, por um caçador Inglês. Pergunto-me qual não deveria ter sido o espanto deste Inglês ao deparar-se com tais constrições que apresentam um assinalável estado de conservação; não só as edificações mas muitas das estátuas e inclusive pinturas sobreviveram nos domínios do subconsciente da Humanidade para reemergirem novamente à luz de um novo dia.
Em Yacharam Ashram;
A minha descida levava-me para o Andhra Pradesh, não longe de Hyderabad, procurando eu o "meu" Guru que me parece fugir por entre os dedos.
Curioso o detalhe de um dia ter desejado visitar as nascentes do Ganges, no Himalaia, e parece que a viajem me leva cada vez mais para Sul. Neste momento encontro-me no Sri Lanka, não longe do ponto mais meridional!
Talvez o descer faca parte da subida. :)
(A próxima edição será acerca desta experiencia, no Yacharam Ashram, que dei o nome de "Os diamantes de Neeraj", passado durante a segunda quinzena de Nov., Dez. 08, Jan. e primeira quinzena de Fevereiro de 09.)
Saudações de LUZ
segunda-feira, março 02, 2009
Definição de Poesia
Perguntava-me recentemente porquê. Percebi que na realidade não sei o que é poesia e talvez nunca venha a saber... por muito que o meu coração se entristeça...
Será um estado de Ser?
Será um delírio da Alma?
Será um perder-se ou um encontrar-se?
Será um render-se ou um deixar-se levar?... E para onde?... Onde?
Talvez seja...
deixar-se levar de autocarro por ruas estreitas onde este não possa passar;
caminhando por passeios e pátios, ver o mundo das gentes
e apanhá-lo mais à frente, para deixar-se levar sem destino,
perguntando aos poucos passageiros: "Para onde vais?"
E ouvir as suas respostas indo com esse alguém buscar o que o outro busca
e talvez encontrar Pessoa a ser recitado nalgum bar simples de Lisboa.
Ou talvez não...
Félix (R.P.)
segunda-feira, fevereiro 16, 2009
Fotos do Diksha Day II
Rishikesh Fotos do "Diksha Day" - Fev. 2008
Durante um ano hesitei partilhar estas fotos, mas parece que algo mudou... :)


sábado, outubro 18, 2008
O Bihar III - "Corroído pelo tempo"
Tentei perceber o que teria sido a cidade de outros tempos mas entre umas ruínas praticamente submersas e o que se encontra no museu torna-se praticamente impossível perceber o que terá sido Pataliputra, ficando-se com a sensação que a cidade continua submersa nas areias do Ganges...
Catalogada com o número "Um", "Chauri" Bearer de Didarganj, é a peça do museu mais considera, quer pelo trabalho escultural, quer por representar os ideais da beleza feminina durante o período Maurya, há cerca de 2300 anos atrás.
Consegue-se perceber ao visitar o museu as alterações que ocorrem na arte reflectindo os ciclos históricos que vão ocorrendo onde por vezes, após períodos de grande detalhe se seguem outros onde a qualidade parece degradar-se...
Foi com surpresa que presenciei o festival dedicado a Durga que durou vários dias. Nos mais variados pontos da cidade foram construídos vários Templos. Alguns deles são surpreendentes construções de bambu e corda, com altitudes que deverão, em algumas situações, rondar os 15 metros, sendo decorados no exterior e no interior. Imagens de Durga são ali colocadas e veneradas. São autênticos Templos amovíveis. Foram dois dias de feriado em que praticamente tudo esteve fechado. No último dia do puja os andores foram retirados destes Templos improvisados e transportados para as margem do Ganges e aí colocados nos barcos que as transportavam até ao meio do rio sendo então atiradas à água! (reaparecendo de novo no próximo ano...) :)
Ao final da tarde, se não toda, praticamente toda a cidade se reunia aos milhares no grande parque da cidade, para dar continuidade às celebrações... Boa altura para regressar ao hotel... :)
Um pequeno, mas interessante museu tem fotos da vida de Mahatma Gandhi, que continua a ser uma referência única, quer na Índia, quer no mundo, especialmente na área da política e religiosa. Como ele próprio disse: "A minha mensagem 'e a minha vida".
Adepto da comida do Sul da Índia tive a sorte de descobrir um restaurante especialista neste tipo de comida, podendo assim deliciar-me com as famosas "Malasa Dosa", os "Idlis", as "Vadas", os "Uttapam"... Que quando bem confeccionado e acompanhado com o molho de coco é realmente uma delicia.
As "sempre" muitas crianças brincavam semi-nuas entre as casas de habitação de construção térrea e a estrada; a presença de búfalos e vacas faz parte do ambiente familiar... as pessoas, em geral, encontram-se nos seus afazeres parecendo totalmente despreocupados... Os campos de arroz mudam lentamente de cor preparando-se para a colheita próxima...
Depois de me instalar no mosteiro do Sri Lanka visito o "Pagode da Paz", contemplo o belo lago, deslocando-me à ancestral "Stupa II", que se encontra protegida no centro do jardim. Este local, fora em 1958, alvo de escavações arqueológicas tendo sido descoberto um cobre com cinzas do Senhor Buddha e outros objectos.
A 2/3 kms desta Stupa encontra-se assinalado com uma plana em Hindi o local onde o Senhor Mahavira terá nascido, encontrando-se actualmente em construção um Templo (Mandir) de mármore branco, característica esta que parece ser uma constante dos Templos Jainas.
Conhecido como "Pilar de Ashoka" encontramos este tranquilo espaço que assinala o local onde o Senhor Buddha terá ensino e passados longos períodos... Actualmente pode ver-se uma Stupa construída em tijolos, um tranquilo tanque, as ruínas de pequenas Stupas e mosteiros e o "Pilar de Ashoka". Fotos interessantes pude ver no pequeno museu de Vaishali que mostram os trabalhos das escavações deste local que esteve enterrado durante séculos. A única coisa que se consegue ver antes e depois dos trabalhos é o pilar. Várias eram as casas de habitação, que antes das escavações, existiam em cima das ruínas sobre vários metros de terra.
O dito pilar é encimado por um leão que tem uma postura interessante; sentado sobre as patas traseiras ostenta uma posição firme e atenta parecendo indicar a submissão voluntaria a um poder Maior, a fazer lembrar o discípulo que se senta aos pés do Mestre. O leão olha em direcção de Kushinagar, o local de passagem do Senhor Buddha (Paranirvana).
Outro dado interessante é a suposta existência da primeira república, a Republica Licchavi nesta área, que teria existido na época do Buddha, que seria um local de grande prosperidade funcionado como suporte da nova comunidade monástica que se formava.
Está referenciado um episódio onde Ananda (principal discípulo de Buddha) pergunta a razão pela qual o Senhor Buddha olha para trás, algo que não era normal. O Senhor Buddha respondeu: "Ananda não há lugar tão belo como Vaishali, um grande desejo surgiu em mim de olhar para trás e vê-la novamente".
"Que o Puro Amor se Expanda"
Nota: "Clicando está estimulando"
terça-feira, outubro 14, 2008
O Bihar II – “Corroído pelo tempo”
Muito do ambiente de rua que se vive em actualmente Rajgir bem que podia ser o mesmo de à milhares de anos... Misturando-se com os traços de modernidade...
Rajgir devido às especiais características naturais fora uma espécie de cidade fortaleza. Os montes existentes naquela imensa planície têm uma disposição que permitiu usa-los, durante centenas de anos, como muralhas. Nos pontos mais vulneráveis a mão humana fez o resto. O Mahabharata refere-se ao local num episódio que envolve várias personagens míticas, entre elas Krishna e o filho do Imperador Brihadratha. Esta dinastia será a primeira entre várias a governar o Império Magadha.
O Senhor Buddha terá passado aqui parte da sua vida, quer como buscador, quer como Ser Iluminado. Aqui terá ensinado no Gridhkuta, também conhecido como “Colina dos Abutres”. Supostamente, foi neste local que o Senhor Buddha profere o Lotus Sutra, que anuncia que todos os seres alcançarão a Iluminaçao. (Que assim seja!).
Mahavira terá aqui passado também longos períodos; um Templo (Mandir) no topo do Vipulachala assinala o local onde terá proferido os seus primeiros ensinamentos.
Uma curiosidade que achei muito interessante foi o facto de nestas montanhas consideradas sagradas não existiram antenas de comunicações, o que parece ser um bom exemplo a seguir. :)
Os Japoneses após as II guerra mundial construíram várias “Pagodas da Paz” que se encontram ligadas a acontecimentos históricos Budista e Rajgir não é excepção. Estas construções acontecem quando muitos destes locais históricos pareciam dormir no esquecimento do tempo.
Por falar em guerras, parece vir a propósito um texto que surgiu da correspondencia trocada com a escritora e amiga Maria Ferreira da Silva. Seja qual for a razão pelo qual aparece, este E-mail, continua a ser lido como uma reflexão acerca do sofrimento e acima de tudo como a forma de abordar esta característica humana, para lá das muitas interpretações, por vezes muito distorcidas...
Transcender o sofrimento para encontrar a Alegria - A carta II
"Om!
(...)
O que o Buddha ensina é averiguarmos a causa do sofrimento e porquê? Ao sabermos a causa do sofrimento ele sai, porque ele vem sempre da nossa mente. Se observarmos que certo sofrimento vem de pensamentos ou ideias, conceitos e desejos e se os banirmos como não sendo reais, largamos o sofrimento (isto na linguagem mais budista).
Quanto à minha concepção, o sofrimento vem da ignorância acerca de quem somos, o que fazemos e para o que viemos. A sublimação humana ou a prática espiritual (meditação) ao purificar-nos dá-nos as respostas e ao compreendermos deixamos de sofrer. Quando entra um pensamento perturbador, é aí que devemos ter consciência dele, porque razão ele surgiu e verificar se ele é real. Na realidade, a maior parte do sofrimento é psíquico e mental (à parte as dores físicas) que deixamos que se instale e até há pessoas que sentem prazer na dor!
(Mesmo com a dor física desenvolvi grande capacidade de a aguentar, ou seja, é relativamente bem suportada).
Aprendi a olhar o meu mal estar como algo que se vinha de mim e eu também podia acabar com ele. Passei então a perceber que afinal o meu estado mais puro não tinha mal de sofrimento e estava sempre bem. Passei a educar a minha mente e sempre que um pensamento de desânimo, de frustração ou de tédio vinha, sabia que não era o meu Eu, mas algo que eu deixava entrar, quer vindo do pensamento dos outros, quer dos ambientes, quer da minha própria insegurança. Eu acabei com o sofrimento, pela atenção com a minha mente. Mesmo quando vem algo que não compreendo, aguardo esclarecê-lo, ou pelas circunstâncias ou pela meditação que me devolve a paz e o entendimento. Tenho sempre "ferramentas à mão".
(O Buddha foi um grande Ser e muito inteligente; o pior são as interpretações que fizeram das suas palavras e ainda hoje o interpretam mal).
Também quanto mais integração houver no Divino (para os budistas no Nirvana), mais puros, menos sofrimento e mais compreensão. Contudo, nada melhor que o Hinduismo para nos dar respostas aos problemas existencias.
(...)
Por cá tudo corre bem e cada momento é muito importante para mim, onde tudo surge como imprevisível, fonte de criatividade e de amor constante em tudo que faço. Tudo é a expriência!
Um abraço e muita luz pela terra de Sanatana-Dharma
Maria"
O ambiente que acompanhou esta viagem no Bihar, esteve especialmente ligado ao Budismo, quer pelos locais visitados, quer pelos tranquilos mosteiros onde me alojara. O mosteiro do Burma (Myanmar), em Rajgir, mostrou-se muito amigável... As próprias leituras que fiz pareciam sincronizadas com o que ia visitando. Foi no Vanu Van (Parque dos bambus) que finalizei as “As quadros Nobres Verdades” comentadas por Ajahn Sumedho, um dos ensinamentos centrais do Senhor Buddha.
Tenho alguns destes exemplares que estão disponíveis para quem os desejar. Eventual envio via CTT e disponibilidade de envio terá de ser visto em conjunto. O livro é gratuito. Não hesite em contactar-me.
As famosas águas termais, fazendo parte de um complexo de Templos dedicado a Lakshmi, atrai desde há muito, para os banhos de água quente; quanto a mim foi a primeira vez que me aventurei neste tipo de águas correntes e de temperatura suportável... Muito bom.
Ainda pensei ir a Pawapuri, a 40 kms de Rajgir, onde existe um Templo especial que marca o suposto local da Iluminação de Mahavira. A descrição que encontrei num panfleto de locais de peregrinação Jaina é elucidativo do afecto e devoção que os devotos Jainas têm a este local: “ De acordo com a crença, foi aqui que o Senhor Mahavira, o maior promotor do Jainismo, alcançou o Nirvana. Centenas de milhares de discípulos retiraram as cinzas após a sua cremação. O ímpeto foi de tal forma grande que até o solo foi levado tornando-se aquela área um imenso tanque de água. Mais tarde, um bonito Templo em mármore branco foi construído no centro do tanque para comemorar o Nirvana do Senhor Mahavira.” Este templo é conhecido como “Jalmandir”.
Ficou a impressão que visitarei este local, se não nesta viagem, certamente numa próxima.
segunda-feira, outubro 13, 2008
O Bihar – “Corroído pelo tempo”
Bihar aparece profundamente ligado ao Senhor Buddha que passou muitos anos da sua vida em vários locais do Bihar. O local mais conhecido e visitado é Bodhi Gaya, onde Siddharta atingiu o estado Búdico, sendo por isso chamado de “Buddha” – “O Iluminado”.
A vida de Mahavira, contemporâneo de Buddha, que é considerado como o maior promotor do Jainismo, está igualmente ligada a estas terras. Curiosamente, ambos, Buddha e Mahavira, por várias vezes aparecem ligados aos mesmos locais, como são os casos de Rajgir e Vaishali, entre outros.
Segundo o Lonely Planet, “Buddha profetizara que o Bihar continuaria sucessivamente a sofrer de “hostilidade, fogo e inundações” continua a ser verdade. Entre vários outros problemas será a região mais pobre, menos literada e sem lei de todas as regiões da Índia”.
Contudo, em termos históricos este estado terá sido o centro de dinastias, que foram símbolos de prosperidade e progresso. De acordo com o Lonely Planet, “rumores existem de que Pataliputra (actualmente Patna) terá sido, no séc. IV e III a.C., a maior cidade do mundo antigo! Outro período áureo terá sido o reinado dos Gupta, no séc. V d.C.
Bodhi Gaya “e o Templo Mahabodhi”
Quando estive pela primeira vez na área circundante do Mahabodhi o calor era tal que dificilmente conseguia andar descalço naquele piso de arenito vermelho. Deixei para mais tarde.
No exterior do templo os pedintes abundavam sem que fosse algo totalmente fora do comum. O que mais surpreendeu foram as técnicas usadas por alguns adolescentes que em grupo me rodearam. Estas abordagens de carácter amigável trazem sempre “água no bico”. Resumindo: queriam que lhes comprasse um dicionário Inglês-Hindi, que diziam necessitar para um teste que iriam ter dois dias depois; entre muitos outros argumentos, alguns deles muito bem elaborados. Sem me comprometer lá andava eu com um grupo de quatro ou cinco rapazes que me acompanhavam para todo o lado, tipo escolta. Entretanto, fui perguntando aos mais velhos acerca desta situação, que confirmaram as minhas suspeitas. Apesar das muitas informações contraditórias, difíceis de investigar cabalmente, a estratégia do dito dicionário seria para uma posterior venda sendo a verdadeira intenção o dinheiro. Com o passar dos dias cada vez me interpelavam menos... A estratégia, se assim se pode dizer, é não haver qualquer comprometimento; nem nunca dizer que sim, nem dizer que não. (...) Mesmo “talvez” pode dar-lhes esperanças significando um prolongar da escolta.
Ficará certamente uma questão por responder: “Como ajudar aqueles que realmente precisam?” Tendo em conta as imensas carências especialmente nas zonas rurais.
Bodhi Gaya estava relativamente serena, o templo e a famosa árvore Boddhi, onde se encontra o “Vajrasan” (o trono de diamantes), local onde o Senhor Buddha se terá sentado em meditação até alcançar a Iluminação, transmite Serenidade e Presença. Os cânticos em Pali envolvem o Templo; os muitos monásticos que vestidos de diferentes cores dão a conhecer a origem do país e tradição, os muitos peregrinos das mais diversas proveniências, o Templo e a árvore Boddhi criam um ambiente especial dentro da tradição Budista.
Uns dias após a minha chegada, iniciara-se um festival que consiste na “oferta de água em memória dos antepassados”, que dura cerca de 15 dias, onde num ritual simbólico, os Hindus, vão aos rios sagrados e oferecem água, num acto que supostamente apela às deidades para benefício dos parentes falecidos.
Muitos eram os Hindus que em grandes grupos visitavam o Templo Mahabodhi...
“A moto de Raj”
Nestes dias conheci Raj que de uma forma simpática me falou do seu projecto de montar uma agência de viagens. As condições que tem são escassas; uma simples moto e a possibilidade de alugar um espaço parecem ser as bases do projecto. Simpatizei com ele e foi na sua moto que conheci alguns locais interessantes em volta de Bodhi Gaya.
Caves Templo de Dungeshwari
Visitamos as Caves Templo de Dungeshwari onde o Senhor Buddha terá passado os seis anos de grandes austeridades. O calor mantinha-se dentro da Cave, que parece um ovo gigante, apesar da frescura daquela manhã. Em volta a simplicidade reina, com um ou outro Templo muito simples, junto da Cave. O local, bem simbólico, não parece atrair as atenções das multidões...
Stupa de Sujata
Mais próximo de Bodhi Gaya uma antiga stupa marca o local onde Sujata ofereceu leite de arroz ao Senhor Buddha, episódio que acontece quando Buddha finaliza os seis anos de austeridades e se desloca a caminho da árvore Bodhi. Tal acontecimento estará profundamente ligado ao reconhecimento do “Caminho do Meio”.
Caves Barabar
Umas outras caves, conhecidas como “Caves Barabar” atraíram a minha atenção. Foram escavadas em grandes maciços de granito e supostamente serviriam como caves de meditação. O local e áreas envolventes são muito bonitos, onde as colinas graníticas aparecem circundadas pelos campos verdes de arroz... A manutenção e limpeza do espaço deixam muito a desejar...
No interior das caves, chama a atenção a simplicidade da construção e a atenção que deram ao polimento das paredes e alguns tectos. Normalmente estes espaços são rectangulares havendo, por vezes, uma segunda câmara circular. O interior das caves irradiam forte calor o que me levou a questionar o propósito para o qual dizem que era usado...
“Um dia em Nalanda”
Desde há muito que tinha assinalado no meu mapa uma visita a Nalanda, tendo tido o prazer de concretizar este intento ao deslocar-me ao local que fora uma referência do conhecimento em toda a Ásia.
Referindo novamente o Lonely Planet: “Fundada no séc. V d.C., Nalanda foi uma das grandes Universidades antigas e um importante centro de conhecimento Budista.
Quando o escolar e viajante Chinês, Xuan Zang, visitou o local, entre os anos 685 e 762 d.C. cerca de 10.000 monges e estudantes residiam aqui estudando teologia, astronomia, metafísica, medicina e filosofia. Nalanda tinha três bibliotecas que eram tão extensas que arderam durante seis meses quando os Afegãos saquearam a Universidade no séc. XII”
Mishra, o guia local, explicava-me que “Nalan” seria um nome usado para a flor de lótus que representa o conhecimento. “Da” estará ligado à ideia de dar, transmitir... Esta será uma das várias explicações para o nome “Nalanda”. “Dar conhecimento”, o que faz muito sentido dentro da filosofia Budista.
O que se vê actualmente das edificações, apesar de significativo, é uma pequena parte do que teria sido esta Universidade.
No último dia em Bodhi Gaya almocei com Raj. Ele levou-me a um simples restaurante onde paguei 30 rupias pelos dois almoços (famosos thali), o que equivale a dizer que almoçamos, os dois, por cerca de 60 cêntimos! Por algum motivo ele simpatiza com aquela família, que como tantas outras, tem imensos filhos e recursos escassos. Falou-me de uma das raparigas da família que gostava de continuar a estudar mas que terá parado por falta de meios mínimos. O valor necessário é de 20/30 USD mensais. Expliquei-lhe que na minha presente situação não me poderia comprometer com encargos fixos, mas também lhe disse que nunca se sabe o que pode acontecer... Se algum dos utilizadores deste blogue estiver disponível certamente que encontraremos a melhor forma de apoiar esta rapariga.
Site do Turismo do Bihar: www.mahabodhi.com/en/temple-complex.htm
terça-feira, setembro 16, 2008
Nepal e a "Menina Aguarela"
Quando penso no Nepal parece que as nuvens das monções se mudaram para dentro da minha cabeça! Contudo, o contrário também é válido; manhãs, ou até certos pôr-do-sol, são tão límpidos que ainda fico meio extático só de neles pensar.
É este contraste paradoxal que parece ter sido a base deste contacto mais profundo com um Nepal de características únicas. Vários exemplos destes paradoxos se vêem um pouco por todo o lado: por exemplo, o dono do Hotel chega a casa e senta-se no chão de terra da sua casa... ou o complexo sistema de castas, bem vivo, para lá dos olhares mais distraídos, ou a turística cidade de Kathmandu que se apresenta relativamente limpa sem que existam caixotes do lixo... Os muitos galos que se ouvem no centro de Kathmandu, como se estivéssemos no campo... Depois existem as zonas mais isoladas do Nepal... Lia no folheto publicitário de "Upper Mustang": "Casamento da mulher com dois ou mais irmãos, para evitar separação das terras de família, está ainda em prática. O marido pode ter segunda mulher se a primeira for infértil. Mas como todas as formas tradicionais, estas também estão a mudar, sob a influência das culturas e valores externos". Os preços para entrar nesta "área restrita" são pouco apelativos (mais de 500 U.S. por 10 dias) mas certamente que é incrível.
Muitos outros exemplos poderiam ser dados. É como se o Nepal vivesse com um pé no passado e esticasse o outro para 'apanhar' a modernidade muito focada no mercado Ocidental, pois têm sido os Ocidentais a grande fonte de receitas, através de tudo o que se liga aos famosos "trekkings", actividades ligadas às montanhas, parques e turismo em geral.
'E possivel participar em programas de voluntariado, o que 'e algo frequante tambem no Nepal com jovens dos mais veriados paises a participar. Era o caso tambem de Kim, Sul Coreano, que se inscrevera no "International Work Camp", num projecto ligado 'as melhorias das condicoes de uma escola.
Nagarkot - A janela "entreaberta" para os Himalaias
A localização de Nagarkot, a cerca de 2000 m de altitude, com os seus muitos hotéis, que parecem disputar o melhor panorama das montanhas é simplesmente fenomenal!
Estávamos no período de monções, o que dificulta a visibilidade com a intensa nebulosidade que normalmente circunda os Himalaias, afastando também os turistas.
No meu caso, mesmo fora de época, fora-me permitido contemplar, por várias vezes, os Grandes Himalaias, que talvez por essa mesma dificuldade trouxe o sabor de bênções ainda mais apreciadas.
Baktapur e o Holandês
De Nagarkot para Baktapur fui no autocarro mais lotado que alguma vez viajei; a minha sorte foi ter a mochila comigo, pois caso contrário, algum se teria sentado ao meu colo!
Em Baktapur, cidade turística que nos transporta aos tempos medievais, fiquei num pequeno hotel. No dia seguinte sentei-me no piso superior que tem uma sala convívio, enquanto aguardava o pequeno-almoço. Naquele piso mora um Holandês, que ali vive com carácter permanente. Tomamos o pequeno-almoço juntos e contou-me um pouco das suas aventuras. Rich, com cerca de 50 anos, fora, segundo ele, o primeiro Ocidental a montar um negócio naquela cidade. Contou-me algumas das peripécias da sua adaptação, e saiu-se com esta história para descrever as suas dificuldades... Mas é um pouco mais que isso...
"Cinco macacos numa jaula. Uma banana pendurada no topo da jaula. Em volta existem jactos de água que se accionam de cada vez que os macacos se movem em direcção à banana. Isto acontece vários dias até que os macacos acabam por desistir. Todos eles têm um bracelete azul no braço. Entretanto, um deles é retirado da jaula e um novo macaco, agora com bracelete vermelha, é colocado no interior da jaula.
A primeira coisa que faz é mover-se em direcção à apetitosa banana. Tal intento é vigorosamente demovido pelos outros quatro macacos. A resistência é tal que este macaco acaba por desistir.
Passados uns dias, voltam a tirar outro macaco de bracelete azul que é substituído por um novo de bracelete vermelho. A reacção foi igual; todos impediram que este alcance a banana.
O processo continua ate que um dia todos os macacos têm bracelete vermelha, e a banana continua no mesmo local" :)
Regresso a Kathmandu
Em Kathmandu, notícias contraditórias iam surgindo acerca da reabertura da fronteira. Após as manifestações "Tibete Livre" os chineses fecharam a fronteira com o Tibete. Ainda se pensou que após s jogos olímpicos a situação se regularizasse.
Decidi fazer o "Annapurna trekking" com objectivo específico de alcançar a Cave de Milarepa, um famoso Yogui do séc. XI e XII, considerado um expoente dentro da tradição Tibetana. O site abaixo dá uma ideia da história:
http://budismotibetano.no.sapo.pt/biografias/milarepa.htm
Era minha ideia fazer este "trekking" como uma espécie de compasso de espera para ir ao Monte Kailash, no Tibete.
Há muito que ouvira falar nestes "trekkings" do Nepal, mas a experiência que se me depara supera tudo o que pudesse imaginar. Com cenários dignos de filmes tipo Senhor dos Anéis, toda a convivência se faz numa subida de vários dias junto ao rio Marsyangdi e as montanhas. O rio tem uma presença fortíssima, por vezes, quase ensurdecedora e as montanhas parecem que são cada vez maiores. A actividade humana está condicionada ao vale; transportes motorizados não existem, o que nos dias de hoje é coisa rara, sendo o transporte de mercadorias feito por animais e especialmente por pessoas, que caminhando em grupos, carregam pesos impressionantes, durante dias e por caminhos que por vezes parecem desaparecer entre água, lama e deslizamentos de terra.
O governo tem mobilizado esforços no sentido da construção de uma estrada naquele vale, mas parece ter a séria oposição da própria natureza que ao ser perturbada no seu delicado equilíbrio, se reajusta por vezes violentamente contrariando as intenções humanas. Como não posso transcrever toda esta experiencia incrível, deixaria parte de uma carta que enviei a uma amiga acerca da experiência e das dificuldades em alcançar a Cave Milarepa e algumas reflexões que daí surgiram.
"Annapurna" significa: A Nutridora.
A Carta:
"A experiência é absolutamente incrível! Esta palavra "incrível" pode ser usada em vários sentidos. Talvez um dos mais famosos trekkings do mundo, de dificuldade considerável, remete o caminhante a uma entrega total e aos aspectos que envolvem a caminhada.
Hotéis simples não faltam, mas no geral as facilidades são escassas, o que obriga o caminhante a transportar consigo o essencial para as surpresas, o que lhe aumenta o peso que carrega. Eu viajei sozinho o que não é propriamente o mais comum, mas que é algo que me agrada cada vez mais. De uma forma geral caminho mais lento que o normal das pessoas mas em contrapartida faço mais tempo, o que nos leva aos mesmos destinos...
Cheguei a considerar fazer a passagem do Thorong passe, porem, tal ideia nunca fizera parte dos planos iniciais. Do outro lado do passe algo escuro parecia afligir-me...
Seja como for, ao passar a barreira dos 3500 metros de altitude fiquei com os sintomas da doença das montanhas, que se agravou pela persistência de uma diarreia que só se curou já no final do regresso.
Fiquei 5 dias em Manang (Braka) onde procurei reequilibrar e gerir esforços. Durante este tempo e um pouco em uso das reservas físicas subi à Milarepa Gompa (a +/- 4200 m) que era o objectivo principal de todo este empreendimento.
Na busca pela suposta cave, que deveria ficar não muito longe da Gompa (templo), e a estender os esforços, uma situação totalmente inesperada demove-me de continuar: Primeiro ouço uma pequena pedra que é seguida por um calhau que se desloca a elevada velocidade vindo das montanhas mais altas. Fiquei assustado, quer pela situação em si, pois o calhau passou a poucos metros de mim, quer pelo receio de que atrás daqueles viessem outros. Locais de protecção e mobilidade eram praticamente nulos, pois afinal estava num pequeno carreiro de uma encosta bem íngreme.
Não hesitei em regressar e procurei uma concavidade um pouco mais abaixo e reflecti um pouco apreciando a beleza da paisagem.
Neste local onde me sentei também dizem que fora utilizado por Milarepa para as suas meditações...
Mas perguntava-me o que tinha acontecido e onde estava a cave.
Ainda hoje não percebi se existe ou não. Depois de comentar o episódio no hotel é que me disseram que a Cave Milarepa fora fechada pelos populares após um desmoronamento de terras. Esta espécie de “meias verdades” é recorrente mesmo nos serviços oficiais, requerendo uma abertura extra para todos estes imprevistos.
Claro que o calhau voador me fez reflectir em várias coisas quase compulsivamente: O que foi aquilo? Um aviso?
Fosse o que fosse foi a decisão mais acertada não estender mais o esforço e como já descrevi parece que não ia ver nada.
Consequência de tudo isto e de um almoço que não consegui digerir venho a provocar o vómito pois sentia-me profundamente indisposto. Houve uma sensação de libertação e parece que ajudou na recuperação...
(Questões relacionadas com a mente)
Um exercício no sentido oposto tem sido feito para trazer a mente mesmo às situações mais desconfortáveis. O próprio trekking foi um óptimo exercício nesse sentido, onde tomei consciência, um pouco mais profundamente, do poder que a mente tem! O esforço do caminho leva a mente a não querer estar ali e a insistir em divagações como forma de alienação. Trazê-la de volta para que ela volte a fugir é um exercício de profunda paciência...
Depois existe a Beleza, a Grandeza, a Presença daquelas paisagens, daquele Vale, escarpas, caminhos... as muitas pessoas sofridas... e as Grandes Montanhas que transportam à Contemplação e à rendição, pois na realidade pouco mais podemos fazer na presença de tal Poder e tal Beleza.
(Reflexões pós experiencia do calhau voador. O desafio que falo a seguir é a "morte" num estado de felicidade).
Parece-me um desafio quase impossível, mas tal será o reflexo de quem tem o domínio da mente e acima de tudo compreendeu que na realidade não há morte. GRANDE DESAFIO! Não sabemos quando somos "levados". Podia ter sido aquele calhau... ou outra coisa qualquer... em qualquer momento... mas também parece haver uma Ordem que gere estes acontecimentos. Quantas vezes, em situações de elevado risco, a vida parece invencível para vir a desfalecer em situações tão insignificantes? Parece-me que temos de proteger a vida e aceitar as leis da natureza e as Leis Cósmicas.
Outra reflexão, algo relacionada com isto, prende-se com algo bem subtil mas de consequências bem consideráveis. Será possível o Ser expressar-se minimamente sem que o individuo tenha e cultive, aquilo que a não ter melhor definição chamarei de "Dignidade do Ser (de Ser)"? Será possível o Ser brilhar se mecanismos acumulados de opressão, de medo... (em relação ao outro...) se mantêm activos num processo interno de chantagem?
Não é esta uma questão importante (issima)? Como poderá o Homem dar o que tem de melhor se não O reconhece em si mesmo?
As reflexões do Rui... :)"
Durante as muitas horas da caminhada várias foram as vezes que deixava divagar a mente nas infinitas possibilidades que parecem haver para criação e valorização de parques temáticos (áreas restritas), que pudessem envolver populações e fossem apelativas a um turismo sustentado...
Terminar o trekking regressando à "civilização" apanhando o jeep que vai ate Besisahar, onde partes significativas são feitas em primeira lenta com a tracção das quatro rodas ligada, num veículo apinhado de gente, ou os sacos de plástico que são distribuídos na carrinha entre Besisahar e kathamdu, revela-nos que a aventura continua.
Kathmandu, de novo.
Kathmandu servia agora como base para recuperar e descansar, ainda na esperança de me deslocar ao Tibete, o que ficará para uma próxima oportunidade.
Praticamente todo o período de permanência no Nepal estive envolvido num projecto que muito me tem cativado. Surgido de um olhar que há muito parecia procurar, deixei-me encantar por "Aguarela" (será formalmente apresentada brevemente). Comigo tem colaborado o Nuno e a Romana, que de forma entusiástica também abraçaram o projecto, que vem progressivamente ganhando forma.
É com muito entusiasmo que espero poder apresentá-lo neste blogue, brevemente.
"Que o Puro Amor se Expanda"
Nota: Não clique na publicidade deste blogue pois estará a estimular a sua continuidade. :)
quarta-feira, julho 16, 2008
Rishikesh I - "Fluindo com o Ganges"
Noutra conversa respondeu-me: "Se não é claro o deves fazer, não facas nada." Quando o ouvi dizer "Não faças nada" um imenso peso me saiu dos ombros!!!!!!!! Como sempre, queria eu obter respostas claras acerca dos próximos passos a dar; situação que acontece repetidas vezes: "Devo ir para a esquerda ou para a direita?"
O que parece é que tal não é mais do que alimentar a compulsividade da mente nos seus mecanismos de criação de pensamentos e alimentar uma série de emoções que em muito são fruto da 'nossa' cultura Ocidental. A questão a colocar é: "Como posso eu tornar o presente momento prazeroso?" e "Como 'ligar-me' à Inteligência Cósmica?".
Na realidade estes momentos de incertezas parecem ser óptimos exercícios para observar atentamente o estado caótico da minha (nossas? J ) mentes.
Tranquilizar a mente e impulsos parece ser fundamental para que decisões claras possam acontecer, onde os ditos passos parecem vir encadear-se como sequência natural dos passos dados anteriormente, tornando-se claros nos devidos momentos.
Rishikesh, permitiu várias alterações à medida que fui praticando Yoga e Sadhana (práticas físicas e espirituais com objectivos espirituais). Estas práticas permitiram lentamente trabalhar muitas tensões acumuladas durante décadas. Muito longe de ser o "Homem Elástico", vejo que a prática continuada traz à superfície muito material que jaz no subconsciente, aparecendo sob a forma de sonhos (muitas vezes medos, fobias... que ganham espaço para vir à superfície, devendo, como tal, ser visto como acontecimento positivo; material que estava latente no subconsciente pode agora ser libertado), sentimentos desajustados, padrões de pensamento negativos... Como se tudo isto funcionasse com entulho não deixando espaço para as faculdades plenas!
Torna-se também mais claro que muito é resultado de comportamentos e hábitos altamente prejudiciais, e por vezes, até destrutivos, que persistem durante anos!
Durante estas práticas mais saudáveis é o próprio corpo físico que parece procurar formas de se reequilibrar e reajustar. Várias foram as vezes que 'diarreias de um dia' pareciam ser um reajustamento energético!
Parece-me oportuno partilhar neste espaço um trecho intitulado: "O Valor da Vida Humana", do livro "Where are you going", do Swami Muktanada.
Acerca das Incertezas
Neste preciso momento, situação idêntica se volta a colocar: planos para me deslocar ao Monte Kaikas, no Tibete, esbarram na Embaixada da China, que não emite Vistos; consequências dos protestos 'Tibete livre', Jogos Olímpicos e muita prepotência!
Perante a incerteza a mente volta a agitar-se em questões infinitas: "O que fazer?????" NADA. Pôr a questão ao Universo e estar consciente destes mecanismos da mente trazendo-os à Luz, parece ser o mais sábio. Com esta atitude interna (nem sempre fácil de manter) estou certo que as melhores soluções virão. Assim tem acontecido...
Engraçado perceber que este compasso de espera tem permitido reavaliar alguns dos meus interesses... Que parece abrir-se ao mundo das artes...
Quando o projecto estiver mais sólido, será com prazer que também será apresentado neste espaço. Espero.
Namaste
Rui
